quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Saudades de você, Peter Pan

Quanto mais velho eu fico, mais saudades tenho de quando era criança.
Saudades das coisas bestas, que são sempre as que doem mais.
De quando jurava que havia um funcionário anão dentro do caixa eletrônico.
De quando palavrão era “Caracas” ou sua sonora derivação “Carácolis!”
De quando acreditava que havia uma lua e um sol para cada cidade.
De quando inconstitucionalissimamente era a maior palavra do mundo.
De quando minha mãe deixava eu abrir o Yakult no meio do supermercado.
Deus sabe como queria passar por isso de novo. Não do mesmo jeito, claro.
Dessa vez daria uma atenção especial ás coisas antes sem importância.
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

Saudade de dizer que estava doente para não ir ao colégio.
Saudade de ganhar brinquedo no dia das crianças.
De ficar sem dormi depois de assistir Fred Gruguer.
De roubar frutas na casa dos vizinhos
De viajar escondido.
Dormi na rede na casa do meu avô.
De empinar pipa na praia.
De um ex namorado.
De brincar com uma bóia na piscina.
Saudades das amigas do colégio que não vejo mais.

Sentir saudade ao contrário é colocar a carroça na frente dos bois,
a prorrogação antes do tempo normal, o amém antes do em nome do pai.
É o rapaz que na véspera de sua amada partir, fica em casa chorando.
Ao invés de aproveitar os últimos instantes ao lado da pessoa querida.
Mas pensando bem, não é algo tão difícil assim de se entender.
Porque sinceramente, acho que nada deve doer tanto quanto a consciência de se dar o ultimo beijo, o último abraço ou fazer a última declaração de amor.


André Muhle

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